“Veja a pessoa primeiro”: mães atípicas revelam desafios e confrontam preconceitos em encontro na Câmara de Jaboticabal

por Ana Paula Junqueira — publicado 06/11/2026 09h58, última modificação 06/11/2026 10h06


Enxergar a pessoa antes do diagnóstico e compreender suas necessidades sem presumir suas limitações. Essa foi uma das principais mensagens do encontro “EMA – Entre Mães Atípicas: Uma Vivência Real e um Direito Legal”, realizado na noite de 29 de outubro, na Câmara Municipal de Jaboticabal. Quatro mães compartilharam experiências sobre os cuidados com os filhos, a descoberta de diferentes condições e o enfrentamento de preconceitos no cotidiano.

A atividade foi promovida pela Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência (CDDPD), presidida pelo vereador Ronaldo Bolognezzi e integrada pelos vereadores Dr. Jonatas Advogado, que solicitou o apoio à realização do evento, e Gregório Casagrande, em parceria com a Escola do Legislativo da Câmara Municipal de Jaboticabal (Elejab).

O encontro reuniu familiares, profissionais, estudantes do curso técnico de enfermagem do Senac e integrantes da comunidade. Também participaram os vereadores Ronaldo Bolognezzi, Dr. Jonatas Advogado e Mandi Serralheiro.

Formado por mães de crianças com nanismo, hidrocefalia, Trissomia do Cromossomo 21 (T21 — síndrome de Down) e Transtorno do Espectro Autista (TEA), o projeto EMA foi apresentado como uma rede de acolhimento, informação e combate ao capacitismo — preconceito que desvaloriza ou presume a incapacidade de pessoas com deficiência.

As participantes abordaram situações que vão de olhares e comentários ofensivos à exclusão nas brincadeiras e nos espaços escolares. Também defenderam que o respeito às diferenças seja ensinado desde a infância. “A inclusão não é um favor, é um direito de todos”, destacou a apresentação de abertura.

NANISMO: CUIDADOS QUE VÃO ALÉM DA ALTURA

Michella Pilato compartilhou a trajetória de Davi, que tem acondroplasia, uma condição genética associada ao nanismo. Ao relatar o acompanhamento com diferentes especialistas e as terapias realizadas desde bebê, chamou a atenção para necessidades de saúde que nem sempre são conhecidas pela sociedade.

“O nanismo não é só a altura”, ressaltou. A mãe descreveu cuidados com a coluna, a respiração, a audição e o desenvolvimento motor, além das dificuldades enfrentadas para assegurar a continuidade do acesso ao medicamento utilizado pelo filho.

Michella Pilato compartilhou a trajetória de Davi, que tem acondroplasia, uma condição genética associada ao nanismo.
“A minha missão não é mudar o tamanho dele para que ele caiba no mundo, mas sim ajudar a mudar o mundo, para que haja espaço para ele”. - Michella Pilato

O depoimento também mostrou os efeitos do preconceito sobre uma criança que gosta de brincar e conviver com os colegas. Michella defendeu o uso da expressão “pessoa com nanismo” e o abandono de termos e piadas que constrangem ou reduzem alguém à sua condição física.

Ao refletir sobre seu papel como mãe, destacou: “A minha missão não é mudar o tamanho dele para que ele caiba no mundo, mas sim ajudar a mudar o mundo, para que haja espaço para ele”.

HIDROCEFALIA: ENXERGAR A CRIANÇA ALÉM DO DIAGNÓSTICO

Malu Farias, mãe de Gavi, contou como a família lidou com o diagnóstico de hidrocefalia quando o filho tinha seis meses. O relato incluiu internações, seis cirurgias e a adaptação ao uso de válvulas para drenagem do líquido acumulado.

Ao recordar o medo diante de uma condição que desconhecia, ressaltou a importância de receber informações e contar com profissionais que acolham tanto a criança quanto a família. Também destacou o acompanhamento realizado na Apae e as conquistas do filho, que estava dando os primeiros passos.

Malu Farias, mãe de Gavi, contou como a família lidou com o diagnóstico de hidrocefalia quando o filho tinha seis meses.
“O importante é a pessoa. Veja a pessoa primeiro, acolha, cuide”. - Malu Farias.

“Além do diagnóstico, existe uma criança cheia de sonhos”, destacou durante a apresentação. Ao falar sobre o desenvolvimento de Gavi, defendeu que ele tenha oportunidades e respeito, sem ser tratado com pena.

A mãe também fez um convite ao público para que o diagnóstico não se sobreponha à identidade de cada um: “O importante é a pessoa. Veja a pessoa primeiro, acolha, cuide”.

SÍNDROME DE DOWN: INFORMAÇÃO PARA DESFAZER MEDOS

Lela Quiles, mãe de Breno, falou sobre os sentimentos vividos durante a gestação, quando exames apontaram a possibilidade de o filho ter síndrome de Down. Em um depoimento sobre medo, expectativas e acolhimento, reconheceu que também precisou rever os próprios preconceitos.

“Eu tinha muito preconceito, o preconceito estava dentro de mim”, relatou. Segundo ela, buscar informações e conhecer outras famílias ajudou a substituir ideias preconcebidas por uma compreensão mais próxima da realidade. “A falta de informação, ela cega a gente”, afirmou.

Lela Quiles, mãe de Breno, falou sobre os sentimentos vividos durante a gestação, quando exames apontaram a possibilidade de o filho ter síndrome de Down.
“A falta de informação, ela cega a gente” - Lela Quiles.

Lela contou que compartilhar sua experiência ainda durante a gestação trouxe um acolhimento que não esperava. Ao apresentar a rotina de Breno, destacou a estimulação, o acompanhamento profissional e a participação da família em seu desenvolvimento.

Entre os esclarecimentos, questionou comentários que classificam a condição de uma criança como mais “leve” pela aparência ou pelas habilidades demonstradas. “A síndrome de Down não tem grau”, ressaltou.

Para a mãe, conhecer as experiências de outras famílias também ajuda a ampliar as expectativas sobre o desenvolvimento dos filhos. “Eles precisam de oportunidade e a gente precisa dar essa oportunidade para eles”, defendeu.

AUTISMO: COMPREENDER AS NECESSIDADES E OFERECER APOIO

Paula Gouvêa, mãe de Emanuel, relatou os caminhos percorridos desde as primeiras mudanças na alimentação e na comunicação do filho até o diagnóstico de autismo, aos dois anos.

Compartilhou dificuldades, avanços e exemplos de como a atenção às necessidades da criança fez diferença em sua trajetória.

Um deles foi a atuação de uma professora que ofereceu caldo de feijão em um copo, respeitando a aceitação de líquidos por Emanuel naquele período. Segundo a mãe, a experiência contribuiu para que ele ampliasse, gradualmente, a alimentação.

Paula Gouvêa, mãe de Emanuel, relatou os caminhos percorridos desde as primeiras mudanças na alimentação e na comunicação do filho até o diagnóstico de autismo, aos dois anos.
“Eu quero que ele seja feliz. Eu quero que as pessoas respeitem o Emanuel pelo ser humano que ele é” - Paula Gouvêa.

Paula também chamou a atenção para julgamentos que atribuem dificuldades da criança à falta de limites ou à educação recebida. Defendeu que as oportunidades de aprendizagem sejam oferecidas sem conclusões antecipadas sobre sua capacidade.

“Ele tem dificuldades, mas ele também tem muitas habilidades”, afirmou. Para ela, reconhecer a necessidade de apoio não deve significar desvalorizar a pessoa. “O problema é transformar essa dificuldade em julgamento sobre o valor ou a capacidade da pessoa.”

Ao falar sobre suas expectativas para o futuro do filho, resumiu: “Eu quero que ele seja feliz. Eu quero que as pessoas respeitem o Emanuel pelo ser humano que ele é”.

INCLUSÃO TAMBÉM NA VIDA ADULTA

O encontro incluiu o depoimento de Rafaela, que relatou ter recebido o diagnóstico tardio de autismo, aos 39 anos. Ela contou que a descoberta ajudou a compreender experiências da infância e da vida adulta, mas também descreveu dificuldades para se recolocar no mercado de trabalho.

Segundo Rafaela, antes do diagnóstico, seus períodos de busca por emprego eram mais curtos. Depois, chegou a permanecer nove meses sem conseguir uma colocação. Ao abordar as vagas destinadas a pessoas com deficiência, questionou se as cotas se traduzem, de fato, em oportunidades de contratação e defendeu que as empresas reconheçam as competências dos candidatos. “A incapacidade está nos olhos de quem vê, não em mim”, afirmou.

Depoimento de Rafaela, que relatou ter recebido o diagnóstico tardio de autismo, aos 39 anos.
“A incapacidade está nos olhos de quem vê, não em mim” - Rafaela.

Ao longo das apresentações, os relatos mostraram como a escuta das pessoas com deficiência e de suas famílias contribui para compreender necessidades, reconhecer capacidades e enfrentar preconceitos. As participantes também destacaram a importância das redes de apoio e do compromisso coletivo com a inclusão na escola, no trabalho e nos demais espaços da comunidade.

 


Assessoria de Comunicação
Fonte: Câmara Municipal de Jaboticabal (Reprodução autorizada mediante citação da Câmara Municipal de Jaboticabal)
(16) 3209-9477