Audiência resgata história da Bienal e abre debate sobre novos caminhos para a cultura de Jaboticabal
Mais do que revisitar a trajetória da Bienal de Arte e Cultura de Jaboticabal, a audiência pública realizada na noite de terça-feira (15.set.26), na Câmara Municipal, colocou em discussão um tema mais amplo: que espaço Jaboticabal quer reservar para a arte, para seus artistas e para a produção cultural nos próximos anos?
O encontro foi promovido pela Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Lazer da Câmara Municipal de Jaboticabal, presidida pelo vereador Prof. Jonas, e reuniu pesquisadores, artistas, produtores culturais, representantes do poder público, integrantes do Conselho Municipal de Política Cultural e agentes da cultura local.
Logo na abertura, Prof. Jonas definiu o propósito da audiência: não apenas recordar o que a Bienal representou para a cidade, mas transformar memória em reflexão e, a partir dela, construir propostas para o futuro da cultura jaboticabalense.
A discussão percorreu mais de um século da história artística do município, passou pelo nascimento da Bienal no final dos anos 1990 e chegou a problemas que ainda fazem parte da realidade de quem produz cultura: falta de espaços para circulação de trabalhos, dificuldade de viver da atividade artística, descontinuidade de políticas culturais, concentração de investimentos em determinadas linguagens e necessidade de maior organização entre os próprios agentes culturais.
Arte e história caminham juntas em Jaboticabal
O primeiro mergulho histórico da noite ficou a cargo do professor e pesquisador Franco Alves Biondi, mestre e doutorando em História pela Unicamp.
A apresentação mostrou que a produção cultural de Jaboticabal começa muito antes com a Bienal. Ela acompanha praticamente toda a formação do município.
Biondi recuperou registros das manifestações culturais ainda no final do século XIX, passando por serestas, festas religiosas, cateretês e sambas, bandas, companhias líricas, teatros e as primeiras exibições cinematográficas. O pesquisador também mostrou como espaços de convivência e instituições culturais ajudaram a construir, ao longo das décadas, uma identidade que fez Jaboticabal ser reconhecida pela música, pelas artes e pela vida cultural.
Professor e pesquisador Franco Alves Biondi falou sobre a relação histórica entre produção artística, memória e identidade local.
Teatros, bandas, escolas, clubes, salões de arte, Biblioteca, Museu Histórico, Pinacoteca e Escola de Artes apareceram nesse percurso como partes de uma história que se mistura com a própria formação da cidade.
Para Biondi, olhar para esse patrimônio não deve significar apenas preservar o passado. A proximidade do bicentenário de Jaboticabal pode ser uma oportunidade para utilizar esse legado como ponto de partida para novos projetos culturais. Segundo ele, momentos históricos em que houve apoio público à construção e valorização da identidade local produziram marcas que permanecem vivas até hoje.
A apresentação também recuperou imagens das comemorações do centenário de Jaboticabal, em 1928, reforçando a relação histórica entre produção artística, memória e identidade local.
Como nasceu a Bienal
Na sequência, o artista, professor e pesquisador da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP) Evandro Carlos Nicolau, idealizador e curador das primeiras edições da Bienal, conduziu a audiência para outro período da história cultural: a efervescência artística dos anos 1990.
Evandro relembrou bares, grupos musicais, artistas plásticos, teatro, encontros informais e experiências coletivas que ajudaram a reunir uma geração de produtores culturais. Desse ambiente nasceu, em 1997, a chamada Nova Produção Cultural de Jaboticabal, uma ocupação artística da Escola de Artes. A experiência acabou funcionando como uma semente para a primeira Bienal de Arte e Cultura, realizada em 1999.
Segundo Evandro, desde o início a proposta procurava valorizar artistas locais, aproximar gerações, entender a arte como trabalho e pesquisa e, ao mesmo tempo, colocar Jaboticabal em contato com produções e experiências de outros lugares.
O artista, professor e pesquisador da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP), Evandro Nicolau, idealizador e curador das primeiras edições da Bienal de Arte de Cultura de Jaboticabal, durante exposição na audiência pública.
Na segunda edição, em 2001, a proposta avançou no sentido de profissionalizar a organização, ampliar a equipe, criar curadorias, desenvolver atividades de formação e educação artística, preservar a memória cultural e promover intercâmbio com produções externas, sem deixar de garantir forte presença dos artistas locais. O objetivo, recordou, era fazer da Bienal um patrimônio público e transformar Jaboticabal em referência regional para as artes.
A Bienal viria posteriormente a ser reconhecida pelo poder público municipal por meio de uma lei aprovada em 2002. Anos depois, novas iniciativas buscaram retomar o projeto, inclusive com uma edição realizada em formato virtual durante o período da pandemia.
Mas a própria trajetória descontínua da Bienal foi utilizada durante a audiência como exemplo de um problema maior: como fazer com que projetos culturais deixem de depender apenas de pessoas, grupos ou determinadas gestões e passem a integrar políticas permanentes de cultura?
Uma Bienal para todas as linguagens
Foi justamente essa pergunta que ganhou força quando o microfone passou aos artistas e agentes culturais presentes.
A produtora cultural e agente territorial de Cultura Alessandra Constantino defendeu que Jaboticabal amplie a forma como enxerga sua própria identidade artística. Para ela, a força cultural do município vai muito além da música e inclui artes visuais, teatro, hip-hop, rap e outras manifestações que também precisam encontrar espaços de apresentação e circulação.
Alessandra relatou a existência de jovens compositores produzindo na cidade sem encontrar locais suficientes para difundir seus trabalhos e defendeu que a Bienal seja construída como uma política de Estado, e não apenas como iniciativa eventual de uma gestão.
Em sua avaliação, poder público, artistas, sociedade civil e Conselho Municipal de Cultura devem compartilhar a construção do evento, garantindo que ele volte a funcionar como uma grande vitrine para diferentes expressões artísticas e tenha regularidade.
A discussão chegou também à estrutura administrativa municipal. Durante o debate, foi defendida a existência de uma estrutura específica para o setor, com o desmembramento da Cultura da pasta de “Educação, Cultura, Esporte e Lazer”, tendo assim orçamento próprio e capacidade de planejar investimentos de forma continuada.
“Monocultura” artística
Já o ilustrador, desenhista e artista visual Rodrigo Romão, utilizando a agricultura como metáfora, comparou a concentração cultural em uma única linguagem a uma “monocultura”. Ele reconheceu a importância da tradição musical de Jaboticabal e da Escola de Artes, onde também se formou, mas questionou se a cidade não poderia ampliar o espaço oferecido a outras expressões. “E as outras manifestações?”, provocou.
Para Romão, a discussão não deve se limitar à realização ou não da Bienal. Ela precisa alcançar também a forma como o município distribui oportunidades, recursos e reconhecimento entre diferentes áreas artísticas. O artista criticou ainda a Administração Municipal pela nomeação de pessoas para cargos em comissão que, em sua avaliação, não teriam qualificação adequada para determinadas funções.
Artistas precisam se conhecer, e trabalhar juntos
Outro ponto levantado durante a audiência foi a necessidade de maior aproximação entre os próprios produtores culturais.
O agente cultural, e servidor público, Eduardo, observou que a classe artística local precisa conhecer melhor o trabalho realizado pelos demais artistas e reduzir ruídos que, muitas vezes, surgem antes mesmo do diálogo.
A experiência da Bienal realizada durante a pandemia foi lembrada como exemplo da capacidade de articulação do setor. A edição, viabilizada por edital e com apoio de uma entidade para a inscrição do projeto, conseguiu reunir e contratar mais de uma centena de artistas em um período especialmente difícil para a cultura.
Para Eduardo, não é preciso esperar que o setor enfrente novas situações de precariedade para que os agentes culturais voltem a se organizar. A aproximação e a construção coletiva podem começar antes e servir de base para novas edições da Bienal e para outras ações culturais no município.
Cultura também é trabalho
A precariedade profissional dos artistas atravessou boa parte das discussões.
Evandro Nicolau chamou atenção para uma realidade que, segundo ele, não é exclusiva de Jaboticabal: a dificuldade de transformar produção artística em atividade profissional capaz de garantir renda e segurança a quem trabalha no setor.
Editais, mecanismos de financiamento e políticas de incentivo foram discutidos sob diferentes perspectivas. Entre os questionamentos apareceram a burocracia para acessar recursos, a competição entre projetos, a dificuldade de remunerar processos criativos que começam muito antes do produto final e a falta de continuidade dos investimentos.
Também foi defendida a retomada de discussões sobre instrumentos mais permanentes, como fundo de cultura e uma agenda constante de ocupação dos equipamentos e espaços culturais.
Nesse sentido, a Bienal apareceu durante a noite menos como um evento isolado e mais como uma possível estrutura de articulação da cultura local: capaz de reunir diferentes linguagens, promover intercâmbio, preservar memória, oferecer formação, movimentar a economia criativa e abrir espaço para artistas mostrarem e desenvolverem seus trabalhos.
O presidente do Conselho Municipal de Política Cultural, Luiz Eduardo Mascaro, também destacou a importância da ocupação dos espaços públicos pelos agentes culturais e da participação conjunta do Poder Público e da sociedade civil na formulação das políticas culturais.
Da memória para os próximos passos
Ao final da audiência, Prof. Jonas afirmou que a discussão não deve terminar no encontro realizado pela Câmara. Entre os encaminhamentos anunciados pelo presidente da Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Lazer está a elaboração de requerimentos para obter informações sobre a composição da Escola de Artes, inclusive sobre a distribuição de profissionais entre música e outras áreas artísticas.
O vereador também colocou a Câmara à disposição para novos encontros e debates e afirmou que será necessário discutir com o poder público os caminhos para a realização da Bienal e para o fortalecimento da cultura local. “Não pode parar por aqui”, resumiu.
Prof. Jonas destacou ainda que a existência de artistas reconhecidos da cidade enfrentando dificuldades profissionais merece respostas do poder público e classificou a audiência como um ponto inicial para uma discussão que deverá prosseguir.
Ao encerrar os trabalhos, reforçou que a responsabilidade, a partir de agora, é transformar as questões levantadas em movimento: ampliar o diálogo, cobrar respostas, discutir alternativas e trabalhar para que a Bienal volte a acontecer e para que a política cultural de Jaboticabal avance.
Se o passado apresentado durante a noite revelou uma cidade marcada pela produção artística, a pergunta deixada para o futuro foi outra: como transformar toda essa tradição em condições para que a cultura continue sendo produzida, para que, quem faz arte em Jaboticabal, encontre espaço para permanecer, criar e viver de seu trabalho!
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Assista na íntegra:
Assessoria de Comunicação
Fonte: Câmara Municipal de Jaboticabal (Reprodução autorizada mediante citação da Câmara Municipal de Jaboticabal)
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